quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O DIA EM QUE EU ALMOCEI COM CLARICE

Vamos recomeçar né... estive sem net, sem tempo, sem vontade, sem inspiração... mas já que tô aqui na casa de meus pais mesmo e minha irmã vive falando comigo " vc abandonou seu blog", resolvi reaparecer...

Aconteceu assim...

Num sábado daqueles em que vc acorda sem nada pra fazer e resolve ir ao centro da cidade pra resolver coisas que não precisavam de tanta urgência (rs), poisé... fomos Deborah e eu... demoramos, andamos, resolvemos enfim ... na volta pra casa, a fome e a preguiça faziam duelo de quem gritava mais alto com o estômago, foi quando paramos para almoçar no Gaia Grill, e comemos A Q U E L A picanha de dar nojo em vegetariano.

Por volta de 12:30hs eis que surge ela, pele clara, estatura media, traços finos e gengivas... embaixo de um guarda chuva que mais parecia com uma barraca de praia... surge ela, Clarice Lispector disfarçada de Beth Goulart ... ela e mais 5 pessoas, que foram entrando de 2 em 2 para não chamar atenção...

RÁ RÁ RÁ ...pensem comigo: alguém que quer manter o anonimato vai almoçar as 12h30min,com uma trupe, um guarda - chuva daquele tamanho no restaurante mais badalado da cidade??? Hã,hã,hã?


Mas ela é a Beth Lispector, ops... tsc,tsc... Clarice Goulart, ou quaisquer dessas variações... o importante foi que todo mundo entendeu o recado

" NÃO QUERO SER INCOMODADA"

de tal forma que acho até que ela ficou frustrada ou surpresa pensando...

"
será que não querem me incomodar ou será que não me reconheceram?"


Eu e Deborah ficamos tão empolgada
s em dar um gelo na Clarice e deixá-la pensando (até parece haha) que fomos correndo comprar o ingresso para a apresentação a noite (hahahahaha) ... gente, quando fui pagar eu tive uma emoção maior ou igual a mesma de quando vi Clarice no Gaia... o preço? R$ 3,00 , vc sabe o que é isso? uma latinha de coca - cola... uma peça daquela por uma latinha de coca???

A Paula pagou 12 reais pq num era sócia... mesmo assim baratíssimo, no Rio num sai por menos de R$ 40,00, ainda mais por ser artista global.




Mas a peça... meu Deus, a peça... eu já fui a muitas peças teatrais no SESC, mas essa, eu não poderia terminar o ano sem assistir... mudou minha vida...

Trazida pelo projeto Arte Sesc, a peça foi adaptada, dirigida e estrelada pela própria Beth, o espetáculo propõe uma conversa entre a autora de A Hora da Estrela e o público. A intérprete encarna a figura, o porte, o gestual e o figurino da escritora Clarice Lispector de uma maneira tão impressionante que quando começou o espetáculo eu me emocionei já na primeira cena, a sensação era que vc estava tendo a oportunidade única de conhecer Clarice, era de arrepiar, gente parecia sessão mediúnica, porque a voz , sua tonalidade, a forma melodiosa e de língua presa com que dizia as palavras ( como ela mesma disse certa vez: " eu não sou russa, tenho lingua presa,se vcs me ouvirem falar uma palavra vão cair pra trás __ AURORA ") , foi impressionante... eu já li alguns livros de Clarice, ja vi algumas entrevistas antigas que as vezes reprisava na tv Cultura, Futura, eu eu arrepiei dos pés a cabeça... não dá para explicar a grandiosidade da interpretação, a própria Deborah que só tinha ouvido falar em Clarice Lispector, ficou emocionada... a peça é ao mesmo tempo dramática, excitante, engraçada, conflituosa... aliás, Clarice vivia num conflito interno, as vezes acho que ela devia sofrer por pensar demais... como ela mesma disse :

" escrevo pra esvaziar a cabeça ..."

Acho realmente que ela era meio perturbada, que nasceu e viveu numa época que não era a dela, hoje, após assistir a peça, tenho outra visão de seus livros, vejo nos textos desabafos, grito preso e engasgado por conta de uma sociedade machista ... daí talvez , o fato de suas personagens femininas , todas serem tão submissas, omissas e sonhadoras... só se podia sonhar... e era exatamente isso que ela mesma fazia, sonhava e escrevia para se libertar de um presente onde ela não podia ser como queria... talvez se ela fosse um pouco de cada personagem, tivesse assim um pouco mais de liberdade e felicidade... e imagino que foi assim que ela viveu, nesse conflito e sensação de vida disperdiçada que ela soube dentro de sua possivel solidão, driblar bem... se descreveu e descreveu muitas mulheres, levou todas consigo, mas deixou muito dela mesma em cada uma de nós ... sei lá, acho que é isso...

Isso que acabei de escrever, veio tão do fundo do coração que não sei porque, mas quero dedicar as minhas avós Maria Antônia Pandeló Cerqueira e Helena Lamim , sendo que talvez se encaixe melhor a primeira que a segunda, pois conheci mais a fundo a vida de Vó Maria, pois convivi mais e tbm era mais aberta a conversas, conhecia a sua inteligência, habilidade e vontade de aprender coisas diferentes, sua capacidade era imensa e só não ficou perdida porque tranferiu para as filhas... já a Vó Helena ela faleceu eu era ainda criança , mas sei qie tbm foi uma mulher de fibra, que teve q conviver com a sociedade da época, casar com um viúvo com 7 filhos, ter mais 7 etc...

Enfim, a elas , minhas avós guerreiras, todo meu amor, respeito e carinho...







Um comentário:

Lena disse...

Nossa!! Eu queria muito ter assistido a essa peça, eu curto muito Clarice, bjos.